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Basquete em cadeira de rodas e qualidade de vida de pessoas com lesão medular





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Aproximadamente 11 mil pessoas ficam paraplégicas ou tetraplégicas anualmente no Brasil (MANZINI, 2001). Segundo Cristante (2005), as lesões acometem mais os homens com idade entre 18 e 40 anos. É neste período da vida que pode ser considerado como o de maior produtividade humana do ponto de vista laboral, sendo que além do trauma físico, causando a incapacidade de realizar diversas funções (como a locomoção), as lesões medulares podem levar os indivíduos a terem problemas sociais e psicológicos. Desta forma, o objetivo deste trabalho foi apresentar, através da literatura científica, a importância do basquete em cadeira de rodas como elemento influenciador na qualidade de vida das pessoas com lesão medular.

 CONCEITUANDO AS LESÕES MEDULARES

Para Souza (1994) a definição de Lesão Medular corresponde a uma disfunção ou interrupção dos movimentos de um ou mais membros, sejam eles superiores, inferiores ou até mesmo os dois. Este quadro clínico é conhecido como paralisia onde ocorre a perda motora ocasionada pela interrupção da via motora que vai do córtex cerebral até o músculo. O termo paralisia é utilizado quando o individuo não consegue realizar movimentos nestas proporções.
Segundo MUTTI (2008) ela pode ocorrer por causas diferentes e de diversas formas, havendo maior ou menor comprometimento dos movimentos, ocorrendo nos casos mais graves, alteração na sensibilidade, no funcionamento dos órgãos, além de alterações na regulação da temperatura corporal e comprometimento do sistema cardiovascular (FRONTERA, 2003).

Estes problemas acontecem porque ao se lesionar a medula, ocorre a morte de neurônios e a queda da transmissão entre axônios do encéfalo e suas conexões com os neurônios da medula, ocasionando uma interrupção de comunicação entre o cérebro e todas as partes do corpo que se localizam abaixo da região lesionada (GREVE; CASALIS; FILHO, 2001).

De acordo com Souza (1994), as lesões medulares podem se apresentar em dois tipos mais comuns:

Tetraplegia ou Quadriplegia: Quando todos os membros sofrem a paralisia, sendo que a maior parte dos indivíduos com este quadro sofreu lesões abaixo da segunda vértebra torácica.

Paraplegia: É quando apenas os membros inferiores são afetados. Os indivíduos com este quadro apresentam lesões a partir e acima da primeira vértebra torácica.

O funcionamento de outros órgãos e sistemas pode ser comprometido, dependendo do local que se encontra a lesão na coluna, sendo que poucas pessoas sobrevivem a lesões acima da quarta vértebra cervical, pois ocorre a paralisia no nervo frênico, ocasionando parada respiratória (SOUZA, 1994).
Segundo Tonello (2007), as lesões podem ser subdivididas em Traumáticas e não Traumáticas. As traumáticas podem ter ser em decorrência de acidentes de carro, quedas, ferimentos por arma de fogo, mergulhos em locais rasos etc. As não traumáticas podem ser ocasionadas por câncer, processos infecciosos, processos degenerativos, causas metabólicas, miastenias graves entre outros.
Segundo Charlifue et al (1999) as Lesões Medulares comprometem diretamente na qualidade de vida dos indivíduos, pois do ponto de vista social, as situações debilitantes das Lesões Medulares frequentemente ocasionam comprometimentos na realização das atividades da vida diária dos indivíduos, além de limitarem a mobilidade e a consequente participação social (CHAN et al, 2007).

Outro ponto importante é o problema da inatividade física e o aparecimento do sedentarismo nesta faixa da população, o que para Nash et al (2005) isto é comum para indivíduos que perdem a funcionalidade dos membros inferiores. Segundo Kocina (1997) o índice de mortalidade por doenças cardiovasculares em indivíduos com Lesão medular chega a ser 228% maior do que a média da população em geral.

Figoni (1993) apud Medola et al (2010) explica que este alto índice de mortalidade é influenciado pela atrofia dos músculos esquelético e cardíaco, desmineralização óssea, redução do conteúdo de água corporal e do volume sanguíneo, diminuição da massa corporal magra e aumento da gordura corporal, todos decorrentes do sedentarismo.

Segundo Medola et al (2010) esta situação exige um programa de reabilitação que vai para além da prevenção dos danos causados pela lesão, tendo como objetivos principais a melhora da qualidade de vida através da independência funcional, melhora da auto - estima e a inclusão social destes indivíduos.

BREVE HISTÓRICO DO ESPORTE EM CADEIRA DE RODAS

A prática de atividades físicas por pessoas com deficiência está comprovada desde a Grécia Antiga. O esporte com finalidades de reabilitação, por sua vez, já era praticado na China há 5.000 anos. No entanto, foi só após a Segunda Guerra Mundial que a prática desportiva teve maior incremento no contexto da prevenção e da reabilitação, sendo aplicado na prevenção de distúrbios secundários e na reabilitação social, física e psíquica (MATTOS, 1990).

Considera – se que o esporte com finalidades terapêuticas e que o esporte em cadeiras de rodas teve inicio no Hospital de Stoke Mandeville, na Inglaterra, por iniciativa do neurologista alemão Ludwig Guttman. Ele incluiu a prática desportiva nos processos terapêuticos das lesões medulares, na década de 40, por estar convencido dos efeitos da prática desportiva no sistema neuromuscular, mas também sobre a motivação dos indivíduos, que frequentemente sofriam de problemas psicológicos devidos ao ócio no hospital (PEDRINELLI, 1994).
No Brasil teve inicio oficialmente a prática do desporto em cadeiras, em 1958, com a criação de dois clubes um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. Ambos foram criados por paraplégicos brasileiros que retornaram de tratamentos em hospitais americanos, onde haviam praticado esporte em cadeiras de rodas. Após a alta hospitalar, a prática desportiva por paraplégicos e tetraplégicos em clubes de lazer ou desportivo, associações, academias ou centros de natação asseguraria a continuidade de parcela significativa do processo de prevenção secundária e reabilitação destas pessoas. (SOUZA, 1994) Segundo Mattos (1994) O basquetebol em cadeira de rodas foi o primeiro esporte adaptado introduzido no país, onde começou a se difundir rapidamente em clubes especializados em pessoas com limitação física.

Com o passar do tempo, o caráter medicamentoso e de reabilitação muscular das atividades físicas, organizadas na forma de esportes adaptados começaram a ganhar contornos mais amplos e ter seu sentido redirecionado, acabando por incluir os conhecimentos advindos dos campos da psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem e da psicomotricidade.

CONTRIBUIÇÕES DO BASQUETE EM CADEIRA DE RODAS PARA A QUALIDADE DE VIDA DOS SEUS PRATICANTES

O termo "qualidade de vida" tem sido objeto de inúmeros estudos científicos e pode ser entendido como uma noção eminentemente humana (MINAYO, 2000).
Atualmente este termo já superou o conceito reducionista de qualidade de vida sendo apenas ausência de doenças. Atualmente o conceito mais usado vem da Organização Mundial de Saúde que a definiu como o nível de percepção que o indivíduo tem vida no contexto da cultura e do sistema de valores nos quais ele vive (FLECK, 1999 apud REZER et al, 2009). Ou seja, qualidade de vida é a medida de satisfação, que é encontrado na vida familiar, social e ambiental, do que a sociedade considera como seu padrão de conforto e bem - estar (MINAYO 2000).

Segundo Vall et al (2006) as pessoas com Lesão Medular sofrem uma importante diminuição de sua qualidade de vida, em todos os sentidos, principalmente no que se refere aos aspectos sociais.

Neste sentido, alguns estudos têm relacionado o exercício físico com melhoras da habilidade funcional e qualidade de vida em indivíduos com Lesão Medular (MANNS et al, 1999; RANDALL, 2003).

Para Medola et al (2010) o esporte adaptado, como o Basquete em cadeira de rodas possibilita do ponto de vista psicológico e social a vivências de esportes, o aumento da tolerância à frustração, o aumento do contato social e a diminuição de distúrbios psicológicos.

Do ponto de vista fisiológico existe a melhora na condição orgânica e funcional como a melhora do consumo máximo de oxigênio, o ganho na capacidade aeróbica, a redução do risco de doenças cardiovasculares e de infecções respiratórias, a diminuição na incidência de complicações médicas, a redução de hospitalizações e o aumento da expectativa de vida (SILVA et al, 2005 apud MEDOLA et al, 2010).

Vários são os estudos encontrados na literatura científica que corroboram com a idéia de que o Basquete em cadeira de rodas serve como um importante elemento influenciador na melhora da qualidade de vida dos seus praticantes.
Soares et al (2007) em seu trabalho discutiram sobre os benefícios sociais e físicos do basquete para o cadeirante e o processo de adequação na sociedade as necessidades de seus membros, sendo que o estudo foi embasado em referências bibliográficas e visitas em sites especializados.

Nos estudos de Lago et al (2008) percebe-se que através do esporte as pessoas com necessidades especiais podem ser incluídas, exercendo qualquer papel dentro da sociedade, podendo praticar esporte de alto nível, aumentando a auto-estima e sociabilizando sem medo de não conseguir e se frustrar.
Vale (2009) analisou as contribuições do basquetebol em cadeira de rodas para praticantes com deficiência física bem como as dificuldades enfrentadas para a continuidade de sua participação nesta modalidade esportiva, no sentido de refletir a cerca da inclusão através da acessibilidade, na construção das relações sociais, na qualidade de vida e no beneficio físico que esta prática desportiva pode proporcionar às pessoas com deficiência física.

Rezer et al (2009) analisou as contribuições do basquetebol em cadeiras de rodas para praticantes com deficiências em uma amostra constituída por 10 sujeitos, do gênero masculino, com idade superior a vinte anos, integrantes da equipe de basquetebol para cadeirantes da cidade de Chapecó/SC. Neste estudo observou-se que a prática desta modalidade oportuniza benefícios físicos e psicológicos aos participantes tais como ganho de independência para atividades da vida diária, auto-confiança, melhora da aptidão física, do auto-conceito e auto-estima, favorecendo desta forma a reconstrução de suas identidades.
Medola et al (2010) em seus estudos reuniram conhecimentos acerca da prática do esporte adaptado em cadeira de rodas para pessoas com lesão da medula, levantando os aspectos específicos da deficiência, suas conseqüências fisiológicas e o impacto sobre a prática esportiva, bem como dos benefícios desta propondo ainda uma reflexão sobre os desafios na iniciação destas pessoas ao esporte, assim como das competências e responsabilidades dos profissionais diretamente ligados ao processo de reabilitação.

Por isto, há algum tempo o esporte vem sendo usado como elemento fundamental no tratamento de pessoas com deficiência física, estimulando e desenvolvendo os aspectos físicos, psicológicos e sociais (SILVA et al, 2005).

CONCLUSÕES:

Percebe-se que a prática esportiva pode contribuir para a melhora de determinados aspectos da qualidade de vida das pessoas com Lesão Medular, sendo que os estudos demonstraram que o Basquete em cadeira de rodas aparece como uma possibilidade interessante às pessoas que necessitam de cadeira de rodas para se locomover.
Porém, outros estudos são necessários, haja vista a dimensão do tema referente às possibilidades de intervenção do Basquete em cadeira de rodas como auxílio às pessoas com lesão medular.

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Osni Oliveira Noberto da Silva

Formado em Licenciatura Plena em Educação Física pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem Especialização em Educação Física Escolar (FINOM), Educação Especial (UEFS) e Treinamento Desportivo (FINOM). Mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). É professor do Departamento de Ciências Humanas - Campus IV da Universidade do Estado da Bahia.



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