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Após risco de morte, Varejão valoriza simplicidade e vira líder sem jogar






Anderson Varejão não joga basquete desde 18 de dezembro. Uma ruptura no quadríceps da perna direita o tirou de quadra em confronto do Cleveland Cavaliers contra o Toronto Raptors e interrompeu sua melhor temporada em nove anos de NBA. Desde então, muita coisa mudou para o brasileiro. Passou por operação em fevereiro e, quatro dias depois, descobriu um coágulo na parte inferior de seu pulmão direito. Diagnosticada, a embolia pulmonar trouxe risco de morte. Ele então fez o tratamento à risca e passou a valorizar mais a simplicidade da vida, isso sem deixar de ser um líder para seus companheiros de equipe.

Hoje em dia, Varejão sofre por não poder jogar. Está praticamente curado da embolia, mas ainda esperará um mês e meio para voltar ao tratamento da lesão na perna, com fisioterapia. Ao todo, são cinco meses de paralisação da carreira. "Fácil não é", disse, em entrevista exclusiva ao Terra concedida no Sheraton Hotel, em São Paulo. Sua rotina é a mesma - vai aos treinos e jogos -, com a diferença de que não pode fazer esforço físico. "É mais ou menos o que eu posso fazer. Estar todo dia dando uma de líder, ajudando a "molecada", os que estão há pouco tempo na NBA", relatou.

No restante do tempo, passou a olhar para a vida de forma diferente. "Eu nem sei te explicar direitinho, mas você vive mais o presente. Com o que acontece, você faz o que acha que tem que fazer – claro que com responsabilidade – em vez de ficar pensando muito lá na frente", afirmou o ala/pivô, que ainda falou sobre a realidade luxuosa da NBA, o contato e a dificuldade dos brasileiros na maior liga do mundo e da saudade dos tempos de Franca, onde foi revelado e de onda saiu para se tornar um dos maiores jogadores do País: "naquela época a gente era adolescente. Você tem e não tem pressão de nada. Está brigando por um sonho. É tudo muito puro, muito real".

Confira a entrevista exclusiva de Anderson Varejão

Anderson Varejão defende o Cleveland Cavaliers, franquia da maior liga de basquete do mundo Foto: Marcelo Pereira / Terra 

Terra - Essa lesão no quadríceps seguida da embolia pulmonar foi um problema muito sério. Como fica a sua cabeça depois desse tempo longo de recuperação?
Anderson Varejão - Fácil não é. Nos últimos três anos tive algumas lesões. É um momento em que você tem que ter muita paciência, muita tranquilidade. O que me ajudou bastante foi o apoio da minha família, minha noiva que estava lá comigo me ajudando com tudo, com o dia-a-dia. Eu acho que isso fez com que eu criasse força para recuperar, porque fácil não é não. E todas as lesões foram estranhas, né? Lesões diferentes. Por um lado é bom porque não é nada crônico, mas por outro lado estar sempre machucado incomoda bastante.

Terra – Por conta da embolia, está sem fazer exercício físico desde janeiro. Quais são os efeitos dessa rotina diferente?
Anderson Varejão - Continuei fazendo as mesmas coisas que fazia antes. Eu não viajava com o time, mas ia para o clube, conversava com os jogadores. Chegaram alguns agora, então conversava com os mais novos, sempre dando um toque aqui e ali. Foi mais ou menos o que eu pude fazer. Estava todo dia dando uma de líder, ajudando a "molecada", os que estão há pouco tempo na NBA. E o restante, "vida normal".

Terra – Mas nesse tempo você não teve a chance de fazer alguma coisa diferente, algum hobby? Se dedicar a outras coisas, exatamente?
Anderson Varejão - A única coisa que eu não estava fazendo era jogar, mas eu tinha que acompanhar o time nos treinos, nos jogos. Não é que eu só fiquei em casa assistindo televisão. Eu tinha a mesma rotina de todo mundo, porém sentava no banco e assistia, não jogava, o que é muito, muito ruim. Saber que você pode ajudar e, pelo problema não poder fazer nada.

Terra – Parece ser muito complicado quando as lesões do esporte, da carreira, ameaçam a sua vida fora disso. Você não temeu que esses problemas pudessem te afetar definitivamente?
Anderson Varejão - Sim e não ao mesmo tempo. Conversando com os médicos, eles falaram que teria de fazer um tratamento de três a seis meses, que seria "tranquilo", que se eu tomasse os remédios e fizesse tudo certinho não ia ter problema. Depois disso, seria vida normal. Ao mesmo tempo, isso faz com que você valorize mais determinadas coisas e viva mais o momento, o que está acontecendo. Você dá mais valor a certas coisas.

Terra – Como assim?
Anderson Varejão - Eu nem sei te explicar direitinho, mas você vive mais o presente. Com o que acontece, você faz o que acha que tem que fazer – claro que com responsabilidade – em vez de ficar pensando muito lá na frente

Varejão concedeu entrevista exclusiva em um hotel de São Paulo Foto: Marcelo Pereira / Terra Varejão concedeu entrevista exclusiva em um hotel de São Paulo 

Quando voltar ao time, terá como treinador o Mike Brown, que foi contratado depois da demissão Byron Scott. Como está a expectativa no clube para a próxima temporada?
Anderson Varejão - Quando o Mike Brown estava no Cleveland, fez um trabalho excelente. É um bom técnico, muito detalhista e metódico. Quando você tem um time novo, é importante ter um técnico assim. Tenho certeza que ele vai fazer um bom trabalho.
Nota: Mike Brown dirigiu os Cavs entre 2005 e 2010, tempo em que levou a franquia pela primeira vez à final da NBA, em 2007, na qual acabou derrotada pelo San Antonio Spurs. Em 2009, foi eleito o técnico do ano

Terra – Como remanescente daquele time vitorioso, você mantém contato com alguns dos ex-jogadores em particular?
Anderson Varejão - Tenho contato com o Sasha Pavlovic, com o Lebron James – a gente até hoje se fala por mensagem. Com o Drew Gooden também e outros que agora não lembro. Procuro sempre manter o contato

Terra – Mas há realmente essa amizade, como vemos em outros esportes?
Anderson Varejão – Pela maneira como é a temporada, fica muito complicado. E quando ela termina eu volto para o Brasil, então fica difícil marcar algo. Mas sempre que acontece alguma coisa a gente se fala por mensagens

Qual é a sua opinião sobre os últimos brasileiros a ingressarem na NBA? Fab Mello (draftado pelo Boston Celtics)e Scott Machado (draftado pelo Houston Rockets, transferido o Golden State Warriors) parecem não ter desencantado. Jogam por Maine Red Claws e Santa Cruz Warriors, respectivamente, na D-League.
Anderson Varejão - Não é fácil, né? É muito difícil você chegar à NBA e muito mais difícil se manter. Tenho certeza que eles vão ter paciência. No primeiro ano é assim: se joga menos. O mais importante é estar preparado para as oportunidades que vão aparecer. A temporada é longa e os primeiros são sempre os mais complicados.

Terra – Para o próximo draft há alguns brasileiros na disputa. Confirmados são o pivô Lucas Bebê (Asefa Estudiantes, Espanha), o armador Raulzinho (Lagun Aro,Espanha) e o ala Alexandre Paranhos (Flamengo)
Anderson Varejão - Espero que dê tudo certo, que eles sejam draftados e espero que um deles pelo menos vá para Cleveland, para eu pelo menos poder ajudar, estar mais próximo e fazer parte. A gente sempre se fala, temos um chat do pessoal que está na Seleção.

Terra – O Leandrinho conta uma história em que, certo dia, foi treinar de bicicleta no Phoenix Suns. O pessoal do clube pregou uma peça, quebrou a bicicleta e jogou no lixo, mas acabou dando um carro novo em folha para ele. O mundo da NBA deve ser cheio de luxo, um mundo milionário. Como foi essa mudança para você?
Anderson Varejão - Quando eu saí do Brasil, fui para a Espanha, e aí experimentei um pouco como era viver fora do Brasil. Meu pai até foi comigo, acompanhou os primeiros três meses. Lá eu morava perto do ginásio, ia andando mesmo. No segundo ano, eu já tinha um cara que trabalhava em casa e me dava carona. Em Cleveland, a primeira coisa que fiz foi tirar a carteira de motorista. Lá não tem como viver sem ter a carteira, foi a primeira coisa que os caras me falaram.

Terra – Mas como você lida com essa realidade de luxo e glamour, com contratos milionários e viagens de jatinhos?
Anderson Varejão - Eu sei que é uma realidade diferente, mas nada disso me fez pensar diferente sobre a vida. Para mim, viajar de jatinho para jogar basquete, porque agora estou em uma situação diferente, é muito bom. Agora, ir de jatinho é perfeito, é isso que eu quero. Mas na época em que eu viajava de van com doze ou quatorze caras, eu também achava o máximo. São fases diferentes da minha vida. Minha família faz com que eu mantenha os pés no chão

Embolia pulmonar causou risco de morte a Anderson Varejão, embora tratamento tenha sido feito e o problema tenha ficado totalmente controlado Foto: Marcelo Pereira / Terra 

Você sente saudade dos tempos de Franca?
Terra - Tenho, ô se tenho. Naquela época a gente era adolescente. Você tem e não tem pressão de nada. Está brigando por um sonho. É tudo muito puro, muito real. Não estou dizendo que lá no Cleveland seja diferente, que tem traíra no time. Não tem. Mas tudo na vida, quando vira obrigação, não é tão gostoso de fazer.

Terra – Com esses problemas recentes você tem pensado em Aeleção? Esse ano tem a Copa América, que dá vaga para o Mundial de basquete...
Anderson Varejão - Estou seguindo mesmo o que os médicos me passam sobre a recuperação, então fica difícil. Infelizmente, o momento é de tristeza por, mais uma vez, não poder fazer parte da Seleção por problemas de lesão. Mas o grupo é forte, unido. Tenho certeza que vão superar a minha ausência e vão conseguir essa vaga.




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